Sobre a necessidade de uma frente ampla, comunista e revolucionária no Brasil.

17/08/2020

André Moreira

Seguindo a lógica do anterior escrito apresentado, onde realizo a discussão acerca da urgência revolucionária e à falta de luxo ao erro por parte dos comunistas brasileiros, este segue sendo, tal como o primeiro, um dos temas mais importantes para a confecção da ponte que liga o trabalho político dos diferentes quadros organizados, o proletariado revolucionário - e os outros setores que estão em disputa - e a construção do programa tático objetivo.

Não é mistério que a trajetória partidária brasileira segue sendo a de capilaridade das organizações. Os rachas proporcionados em períodos tangentes de crises externas e internas na conjuntura constituem, hoje, talvez um dos impedimentos mais latentes na formação de uma frente revolucionária. Se traçarmos uma linha histórica dos partidos de esquerda no Brasil, veremos que todos se ligaram, em algum momento, ao PCB ou ao PT. A ala do PT sofreu rachas muito mais recentes e vividos que o PCB; a própria estrutura reformista do Partido dos Trabalhadores negligencia a centralização tática acionária e resulta em rachas muito mais técnicos e tendenciosamente cunhados sob os limites da própria democracia burguesa estrutural. Ou seja, ao fim, os rachas do PT são de muito mais simples entendimento que os do PCB, uma vez que os motivos para estes são, majoritariamente, expressos em divergências reformistas.

A história do PCB é um tanto quanto diferente. Podemos resgatar o racha do PCdoB advindo da crise interna do pós-stalinismo na URSS, em 1956, e a linha de apoio ao discurso de Khrushchev nas fileiras internas. Após a adaptação do maoísmo nas fileiras do PCdoB como tática de enfrentamento à ditadura militar, surge o racha responsável pela criação do PCR, que resgata o stalinismo como fonte teórico-programática e, posteriormente (na ruptura sino-albanesa) o reconhecimento da linha hoxhaísta.

O trotskismo no Brasil é cunhado de maneira organizada em um cenário histórico muito recente, advindo majoritariamente de rachas com o PT realizados por alas revolucionárias, como o PSTU, o PCO e algumas alas do PSOL. Aliás, falar de PSOL é sempre uma dificuldade tremenda; as dezenas de alas internas que disputam o poder central - quase que na totalidade focadas em uma manutenção senil do capitalismo estruturado sob a democracia burguesa - mostram faces muito adversas entre si, contando com quadros que variam do marxismo ao nacional desenvolvimentismo e mais - de maneira semelhante ao próprio Partido dos Trabalhadores e ao PCdoB pós-1992.

Dentre as eternas discussões que permeiam as experiências histórias socialistas do século passado, os partidos comunistas brasileiros - e principalmente seus quadros influentes - tendem a não estarem dispostos a enterrarem os mortos e constituírem a tal complexada "unidade de esquerda". Existem algumas variáveis nesse sentido, a qual devem ser destrinchadas com a devida atenção.

A primeira delas é o complexo de confiança. Os quadros comunistas organizados aparentam ainda extrema dificuldade de estabelecerem uma linha clara de confiança em outros quadros. O problema se dá de maneira tanto interna quanto externa, sendo esta última, obviamente, muito mais forte. O motivo para tal desconfiança é ainda mais complexo: o programa. Não há a mínima intenção de se conversar a unidade de esquerda deixando claro os pontos de discordância, fato este que deveria ser submetido, antes da dissolução de qualquer possiblidade de união, ao poder popular. O programa é eternamente preso à ala interna das organizações, isto é, ele nem mesmo chega ao proletariado para ser discutido sob a égide de submissão não coercitiva popular.

E não enganam os olhos atentos as organizações que presam eternamente pelo discurso demagógico de "necessidade de um trabalho de base" não realizado pelos companheiros e companheiras de outras organizações. A culpa recai, nesse caso, em toda a ala revolucionária que não consegue, por demagogia e paternalismo, estabelecer em si própria o desejo de unidade. Estes são os que mais gostariam de exaurir a discussão revolucionária que aflora das massas em prol de um programa único advindo do Comitê Central Todo Poderoso de, claro, sua organização. A unidade não é apenas tática ou dentro dos moldes da limitação acionária democrático-burguesa; ao contrário, ela é a base da revolução socialista. Enquanto for negligenciada ou capitulada em prol da desconfiança e do sectarismo entre as fileiras comunistas, será fadada ao esquecimento.

A segunda variável se apresenta como sendo o limite do passado. A eterna batalha entre o maoísmo, leninismo, trotskismo e stalinismo travada historicamente na criação das organizações revolucionárias brasileiras ainda não cessou. A experiência russa e chinesa, responsáveis pelas linhas acionárias reivindicadas pela imensa maioria das revoluções socialistas na história, ainda é alvo de um dos debates mais danosos e custosos ao nosso futuro: o moralista. Pouco importa para os tri, tetra-internacionalistas e não-alinhados quais são as objetividades concretas das experiências socialistas, o que importa é que aparentemente existe um modelo socialista acabado e exportável para nós e, os que pensam nele com alguma diferença não passam da linha oportunista dos agentes da burguesia. Quem dera o socialismo fosse facilmente dirigível.

Ao contrário do que se possa pensar, a parte útil dessas discussões, isto é, o florescimento de diferentes perspectivas sob a análise imanente da realidade, não passa de um setor incomodo que deve ser apontado - rapidamente, quando muito - nas colocações dos camaradas organizados. Esse deveria, afinal, ser um problema posterior à própria visão de uma ruptura com o capitalismo, devendo ser, também, claramente aberto às discussões partidárias. Ao contrário de uma determinação teórica e talvez reivindicativa, o fardo do século XX torna-se um impedimento ativo e concreto para a chamada "unidade de esquerda".

Por fim, o terceiro e último dilema ou variável no setor comunista e revolucionário brasileiro se dá pela falta de atenção das organizações ao realizar suas unidades. Unidades está no plural, pois existem milhares espalhadas pelo Brasil. Além disso, "unidade de esquerda" fora sempre escrita entre aspas, pois ela, no estrito senso de sua definição, já existe e, pasmem, não representa nada para os revolucionários e revolucionárias.

Veja bem, a "unidade de esquerda" é completamente diferente da unidade de comunistas pela revolução brasileira. A primeira existe e engloba, atualmente, uma tática acionária limitada pela democracia burguesa; a segunda não existe e englobaria, caso existisse, as perspectivas que vão além do domínio do capital e, mais especificadamente, constroem sua destruição. A primeira está cunhada historicamente pela demagogia dos comunistas e o reformismo da ala de esquerda; a segunda seria cunhada pelo estabelecimento de discordâncias na unidade e procuraria destruir os reformistas que a freiam, tanto "esquerdistas" quanto "sociais democratas". A primeira é estabelecida majoritariamente pelo comportamento tático defensivo das organizações; a segunda se ergueria com o intuito de, finalmente, ir à ofensiva contra a burguesia, seus agentes e a lógica do capital. Por fim, a primeira é um impedimento para a revolução, uma vez que age no pressuposto de "dividir para conquistar" uma parcela específica do proletariado; a segunda seria a base da revolução socialista e destruição da velha ordem burguesa.

Por isso o dever dos comunistas deve ser a defesa da unidade e da frente ampla, desde que esta se estabeleça em uma lógica anti-capitalista, comunista e revolucionária. É dever, tampouco, estabelecer como quadro organizado uma enérgica agitação para a ampliação dessa proposta, tal como se certificar de concretizá-la de maneira objetiva e correta, sem o paternalismo, a demagogia, o sectarismo e a desconfiança de um lado, tampouco o reformismo, a censura das discussões e o anarquismo tático (colocado também sob a égide mínima de um programa comunista básico em comum acordo) de outro. Por uma frente comunista e revolucionária na qual aflorem, como dizia o Presidente Mao, as 100 flores de pensamento! Por uma frente que combata o sectarismo e a negligência com o mesmo ardor! Por uma unidade verdadeira entre camaradas e organizações! Por uma unidade que preserve o sentido histórico do marxismo e o insira nas massas trabalhadoras! Enfim, pela sepultura dos mortos em prol da nossa revolução! Discutiremos suas vidas em nossas prosas e no "sétimo dia", daqui até lá, temos nosso próprio dever histórico.