Porque todo comunista pode (e deve) apoiar Bernie Sanders

15/03/2020

    Os Estados Unidos da América, país sendo reconhecidamente o centro do imperialismo mundial, encontra-se em meio ao ano eleitoral. Após a vitória de Donald Trump em 2016, muito se especula atualmente sobre uma possível reeleição dos Republicanos. Tampouco, houve nesse período uma reorganização massiva do Partido Democrata, onde um dos possíveis candidatos para a corrida eleitoral é Bernie Sanders. Infelizmente, a casa da democracia funciona sob um regime duo-partidário comprovadamente anti-representativo. Não há possibilidade para a representação formal de organizações comunistas, socialistas ou de cunho mais à esquerda dos próprios democratas, representados como sendo uma opção de social-liberalismo que não deixam faltar escândalos do mais puro terror sob o proletariado mundial (tanto interno quanto externo).

    O último governo dos democratas, marcado pela eleição de Barack Obama, foi também palco de no mínimo 12 conflitos bélicos abertos, comandados sob a mesma antiga lógica de preservação da hegemonia econômica do capitalismo norte-americano. Tais conflitos se deram no Afeganistão, Iraque, Paquistão, Uganda, Congo, Somália, Síria, Líbia, Sudão, Irã e por fim, na República Central Africana. A administração Obama concentrou dez vezes mais bombardeios de Drones em áreas civis que a antiga presidência de Bush. O conflito sírio havia acumulado até 2016 o número grotesco de mais de 500.000 mortes como ação direta dos Estados Unidos e aliados, sendo as consequências secundárias diretas do conflito, como perda material, cultural, deslocamento forçado de refugiados e gastos de Estado ainda mais devastadoras.

    Portanto, é preciso ter em mente ao analisar a política dos EUA que os dois Partidos que revezam eternamente a força de coerção legal são homogêneos no que diz respeito à preservação do status quo de dominação mundial do capital financeiro imperialista sob a vida humana.

    Contudo, Sanders se mostra um candidato diametralmente diferente do perfil convencional dos escolhidos pelo Partido Democrata. Nascido em Nova York no ano de 1941, o estadunidense atualmente serve ao cargo de Senador pelo estado de Vermont, sendo o candidato independente (quando você disputa a corrida eleitoral sem estar filiado nem aos republicanos, nem aos democratas) com maior mandato da história do país. Filiado ao Partido Socialista dos Trabalhadores de 1980 até 2015, quando ingressou nos Democratas, Sanders é um autodeclarado socialista democrático, isto é, em suas palavras:

"Não acredito que o governo deve tomar o controle da padaria no final da rua ou dos meios de produção, mas eu acredito que a classe média e as famílias trabalhadoras que produzem a riqueza da América merecem uma qualidade de vida decente e que seus salários devem ascender e não descender. Eu acredito em empresas privadas que prosperam e investem no crescimento da América, empresas que criam empregos aqui, ao invés de empresas que fecham suas portas nas América e aumentam seus lucros ao explorar mão-de-obra barata no exterior". (FORAN, 2015).

    

    Ou seja, em suas palavras, Bernie Sanders é um social-liberal reformista, apesar da autodeclaração. Dentre famosas propostas, o candidato afirma seu compromisso na criação de um sistema de saúde universal, redução das dívidas estudantis, ofertas de ensino superior gratuito (em um sistema híbrido de funcionamento, isto é, quem pode pagar, paga, quem não pode, usufrui do espaço gratuitamente), eliminação do teto de contribuição voluntária para projetos de seguridade social (o máximo que indivíduos podem pagar atualmente são 250 dólares), ampliação dos direitos trabalhistas, obrigatoriedade da licença parental, licença por doenças, férias remuneradas, organização e facilitação de entrada em sindicatos, reformas completas no sistema eleitoral e no sistema de financiamento privado de campanhas eleitorais, reformas no sistema financeiro (como o fim da assistência social às instituição oligopolizadas, a restauração da lei Glass-Steagall, que limita os títulos emitidos por bancos comerciais, o fim da independência do FRB - Federal Reserve Bank e a permissão para que correios auxiliem nos serviços bancários em áreas de necessidade), políticas pró-LGBT e pró-escolha, abolição do sistema privado carcerário e da pena de morte, legalização em escala federal da maconhae ações vigorosas contra o aquecimento global.

    Além disso, o senador é um antigo defensor do pacifismo e condenou abertamente o sistema de hegemonia militar dos Estados Unidos no que diz respeito aos conflitos internacionais, principalmente no período da Guerra ao Terror e na guerra síria.

     É possível enxergar em Sanders não só o primeiro passo dos Estados Unidos rumo às mais básicas conquistas da classe trabalhadora, que atualmente não possuem o mínimo diálogo organizado nas entidades trabalhistas, tampouco acesso ao caro sistema de saúde privado. Sua popularidade também se destaca entre os jovens, os quais estão constantemente presos nas dívidas de empréstimos estudantis (garantidas para o ingresso em instituições de ensino superior) e se veem obrigados aos mais descuidados atos para pagá-las, como por exemplo, ingressar às forças armadas. A história de Thomas McGregor, entrevistado por Jennifer Liberto pelo veículo CNN, é também a de inúmeros jovens estadunidenses. Thomas ingressou na faculdade de Direito St. Thomas, em Minnesota, com aproximadamente 108.000 dólares em dívidas de empréstimos. Após muitos meses de desemprego, o jovem decidiu ingressar no exército. Durante seu tempo servindo, Thomas lutou no Iraque em 2010 e, em 2012, no Afeganistão, onde um de seus amigos perdeu uma perna por uma mina terrestre.

     Por sorte, o jovem conseguiu voltar para casa. Ao ser entrevistado e perguntado sobre o porquê de ter se submetido à guerra, Thomas respondeu que "eu estava apenas sendo realista. Eu iria pagar esses empréstimos por toda a vida e eu sabia que os juros fariam a dívida crescer. Eu não consegui pensar em uma opção melhor." (LIBERTO, 2013). Sim, não existem opções melhores. De acordo com o artigo de Kailey Hagen, feito neste ano, um soldado ativo consegue inicialmente a assistência de 65.000 dólares (!), já um reservista pode conseguir até 20.000. São números exorbitantes e de fato, ao implementar uma política de guerra em uma juventude que não se identifica com o processo tão naturalizado pelo imperialismo de matar inocentes pelo próprio país, que seja então o processo de matar inocentes pelo meu empréstimo estudantil.

     Se ainda não ficou claro, caminhemos aos motivos pelos quais os comunistas do mundo, os internacionalistas, podem e essencialmente devem apoiar a candidatura de Bernie Sanders. Primeiramente, o motivo mais claro para todos nós é a solidariedade pelo povo estadunidense. O governo de Donald Trump não representa o fracasso do idealismo neoliberal apenas nos bonitos e estudados gráficos, que parecem estar anos-luz de distância da realidade efetiva quando lidos pelos brasileiros. Ao contrário, tais números representam histórias não só como a de Thomas, mas também (e em grande maioria) das baixas classes do país, compostas por negros (12,3%), latinos (12,5%), asiáticos (3,6%) e nativos (0,9%). Essa população está em grande parte encarcerada ou condenada a viver em miséria e exploração sem tamanho pelas políticas falhas do neoliberalismo de Trump.

     Bernie tem planos para trazer maior igualdade de distribuição para a população, além dos planos de desencarceramento e reorganização policial. Sua eleição pode significar materialmente a vida e a morte dessa parcela da classe trabalhadora estadunidense, algo que nenhum outro pré-candidato democrata (levando em conta que apenas um comunista dotado da mais pura imbecilidade votaria ou apoiaria um candidato dos republicanos) possui.

     O segundo fator é a relação do império capitalista no cenário internacional. Bernie Sanders, sendo ativamente um pacifista e defensor do fim das operações militares exteriores, pode levar a tão esperada paz para a classe trabalhadora de inúmeros países afetados pelo aventureirismo estadunidense, como os sírios, os mexicanos, costarriquenhos, iranianos, dentre inúmeros outros. Não apoiá-lo é condenar massas e massas de trabalhadoras e trabalhadores ao inferno da guerra, da migração forçada e da ilegalidade por mais 4 anos.

     O terceiro fator é seu diálogo com o sistema bancário dos Estados Unidos. Este ponto afeta o mundo como um todo, visto que a economia global é coordenada pelos interesses do imperialismo, este submetido principalmente às elites bancárias, especuladoras e fundiárias norte-americanas. Se Sanders conseguir aplicar uma política anti-trustes em seu país, veremos veemente uma melhora mundial no que diz respeito à concentração de renda bancária, se conseguir, no entanto, travar totalmente a luta que deseja contra o sistema crediário bancário, haverão melhorias estrondosas no que diz respeito ao desenvolvimento de países submetidos ao jugo do imperialismo estadunidense (o Brasil, claramente, incluso).

     O quarto fator consiste na concepção correta entre estratégia e luta. Bernie, não sendo um revolucionário comunista, deve ser alvo de apoio crítico diante da esquerda mundial. Nem a idolatria messiânica e mecanicista, tampouco o leque de abstenção que resultará na reeleição de Donald Trump. É preciso ter tato ao tratar do legalismo democrático burguês, o desenrolar da conjuntura modifica também a tática adotada, e é preciso lembrar que nenhuma opção deve ser desconsiderada de possibilidade. Lembremos a afirmação de Lênin em seu texto Partido legal e trabalho ilegal, de 1912:

"Da modificação das condições sociais decorre apenas a modificação das formas de organização, mas nada na resolução fundamenta a direção dessa modificação. Por que motivo se refere a resolução à 'modificação das condições sociopolíticas'? Evidentemente, para demonstrar, fundamentar, extrair a sua conclusão prática: a organização ilegal deve adaptar-se ao movimento legal. Mas da premissa de modo nenhum decorre tal conclusão. 'Dada a modificação das condições' o legal deve adaptar-se ao ilegal - esta conclusão seria igualmente legítima!" (LÊNIN, 1977, p. 178).


     Não apoiar Bernie Sanders na conjuntura atual de movimentação neoliberal basilar do imperialismo no centro venoso do capitalismo é, em essência, desconsiderar o papel internacionalista do comunismo. Apontar ao abstencionismo como sendo opção viável para a materialidade objetiva que irá se desenrolar nos próximos períodos é, tampouco, invocação de estrondosa concepção de sectarismo e, em suma, imbecilidade. Dizer que "não podemos esperar nenhuma mudança de atitude dos EUA em relação à sua atuação na América Latina e no restante do mundo caso Sanders ganhe as eleições" (ANNUNZIATTA, 2020), como afirma Felipe em seu texto O falso socialismo de Bernie Sanders nos EUA, para o Jornal A Verdade, é o que de fato torna-se uma movimentação anti-trabalhadora, anti-classe trabalhadora e, portanto, falsamente atribuída ao socialismo.

     Apoiar Bernie Sanders na atual conjuntura é dar à classe trabalhadora dos Estados Unidos e do mundo um novo quadro de leques de possibilidades de luta anti-capitalista. Não apoiá-lo e buscar o covarde e sectário abstencionismo, é garantir a vitória de Donald Trump e de seu modelo neoliberal belicista. A escolha no que diz respeito aos comunistas do Brasil, mais uma vez, mostra-se nas mãos de um grupo desconexo da realidade, preso em ilusões nostálgicas de uma tática que substancialmente mostra-se diferente. Tal grupo é, em suma, o atraso da revolução mundial e brasileira, a norma do sectarismo e da política de ineficientes e imbecis indivíduos que terminarão, mais uma vez, na lata de lixo da história.

André Moreira.


Referências Bibliográficas:

LÊNIN, Vladimir. Obras completas, tomo 22. Lisboa: Avante! 1977.

FORAN, Clare. Bernie Sanders makes his pich for socialism. Georgtown: The Atlantic, 2015.

LIBERTO, Jannifer. I risked my life to pay off $108,000 in studants loans. Minnesota: CNN Money, 2013.

ANNUNZIATTA, Felipe. O falso socialismo de Bernie Sanders nos EUA. São Paulo: Jornal A Verdade, 2020.