Para todo camarada ler antes de se organizar

29/02/2020

  A organização político-partidária é de suma importância para a ação tática revolucionária. Em nosso país, há muito tempo a classe trabalhadora ficou a reboque de movimentos ineficientes. De um lado, havia a social democracia, com a convulsão oportunista e infantil de considerar a conciliação de classes, o positivismo e o parlamentarismo opções viáveis para a mudança social radical e basilar. Do outro, o espontaneísmo que de tempos em tempos trazia às ruas massas inteiras determinadas ao enfrentamento do Estado, que no entanto, não trazia consigo a concepção programática de mudanças efetivas, ficando presa e dependente das pautas econômicas, dos meios tradicionais de comunicação e, por fim, de nada mais avançado que o reformismo.

  Quando o indivíduo se organiza politicamente, ele tende fortemente ao afastamento da consciência imediatista e torna-se, portanto, ativo atuante na movimentação tática organizacional da luta comunista. Contudo, é preciso pontuar relações críticas existentes nas contradições internas das organizações comunistas brasileiras. É preciso, antes de se organizar, saber onde se está entrando, como atua tal organização e o que você, como indivíduo, se propõe para com a contribuição da luta de emancipação humana. Dentro destes três pontos, desenvolverei os próximos parágrafos.

Saiba onde você está se inserindo:

  Situação infeliz e comumente presenciada dentro das organizações político-partidárias brasileiras é a integração militante com uma rede de indivíduos que desconhecem o próprio estatuto do Partido. A situação torna-se ainda mais grave no quadro atual, onde a separação tática da esquerda é extrema, gerando organizações setorizadas e amplamente hostis umas às outras.

  Antes de tudo, é preciso entender que no Brasil, atualmente, os Partidos Comunistas dividem-se (na imensa maioria, desconsiderando as pequenas e inexpressivas organizações) entre tri-internacionalistas (stalinistas), tetra-internacionalistas (trotskistas) e sino-simpatizantes (maoístas). Os parênteses são apenas para ilustrar a concepção geral tática da organização, porque estão inseridos em seu seio militante grande variedade de posicionamentos teórico-críticos. Contudo, é necessário, antes de adentrar à militância, procurar entender quais são as diferenças essenciais entre os três círculos teóricos, possibilitando assim, maior coerência entre o Partido e o indivíduo.

  Além da concepção tática teórica, o modelo de organização e funcionamento interno do Partido se altera entre os três majoritários campos de militância. Os assuntos que serão modificados são extensos e diversos, desde participação eleitoral até o trabalho ilegal e clandestino, o enfoque ao movimento estudantil, o sindicalismo, a coalização com amplas frentes etc. Por isso, é preciso conhecer o máximo possível das concepções a priori.

  Reiterando: você não precisa ser stalinista para estar em um Partido tri-internacionalista, não precisa ser trotskista, tampouco maoísta. Lembre-se que o cultualismo à personas históricas é anti-marxista. Se sua organização (principalmente a liderança) demonstra traços de reinvindicações pessoais e anacrônicas, saiba que também estará presente no Partido certa "exigência moral" de acordo com a avaliação histórica comumente defendida em seu interior.

Não deixe que o Partido faça de você um instrumento acrítico:

  Outra manifestação bastante comum no círculo partidário é a falta de concepção crítica individual da militância. Este fato, por minha experiência, se mostra mais evidente em duas ocasiões: em reuniões ampliadas e em diálogos com as massas.

  No primeiro caso, o que impera é uma espécie de histeria coletiva (não fazendo, naturalmente, julgamento de valor, apenas relatando o que ocorre objetivamente) no seio da organização. Quando um ou outro posicionamento se mostra passível de uma crítica coerente do indivíduo, este sente-se estranhamento para com as companheiras e companheiros. O sentimento de moralismo que aflora no ato de estar organizado coletivamente pesa sob os ombros da individualidade crítica, fazendo com que o militante se cale diante do estranhamento, muitas vezes manifestado por outras pessoas e igualmente ignorado.

  Tal moralismo é um fator cotidianamente presenciado na organização partidária. Ele advém tanto por parte individual quanto por parte da própria organização (o que é severamente mais perigoso). Não importando sua origem, é preciso combatê-lo. Não existe, no trabalho coletivo, uma relação moral entre posição e crítica. Estando organizado, lembre-se que não existe (ou não deveria existir) uma opinião "menos considerável", "menos válida", "imoral'. Pensar de maneira destoante à maioria organizada é imprescindível para a construção coletiva do programa tático, e cada vez que você se cala diante deste fato, mais uma vitória adquirem os oportunistas que desejam um Partido Comunista religiosamente organizado sob a base da imutável metafísica; uma seita.

  O segundo caso é diferente. Quando a organização dialoga com as massas, é preciso, na mente de um dirigente que não confia nas mesmas (e portanto, não confia na própria base) a negação da possibilidade de crítica. Se é preciso organizar o povo, como poderemos afirmar que estamos sistematicamente errando em nosso trabalho? Bom, primeiramente não é possível distinguir com exatidão o que é algo objetivamente "certo" e "errado" para a organização, salvo raros casos onde há claramente muito a se perder ou a se ganhar.

  Um trabalho bom, ótimo quiçá, não está livre de equívocos. Apontá-los abre o primeiro caminho para a melhora tática sistemática. Tendo a acreditar que não apontar os equívocos para a massa contribua mais para seu afastamento que para sua aproximação. Você, enquanto desorganizado, era estupidamente incapaz de ter o mínimo raciocínio crítico? Você, enquanto desorganizado, conseguia afirmar críticas a objetos, processos e ideias que concordava? Portanto, organizado, o quadro continua o mesmo. Se a liderança de seu Partido te impele ao acriticismo diante das massas, então ela é definitivamente oportunista, não confia ao povo seu papel decisivo na construção da luta popular e irá ser sistematicamente ineficiente no programa tático do dia-a-dia militante.

Saiba diferenciar o individualismo da individualidade (eles muitas vezes não sabem):

  Ao adentrar no círculo militante, muitas vezes o indivíduo é apresentado à concepção de individualismo. Apesar de conhecermos muito bem o que este significa, dentro da construção coletiva de uma organização que se propõe a ser germinadora do novo pensamento social, o termo carrega mais importância. Negar o individualismo é negar a concepção de que você, como ser presente na sociedade, tem mais importância (ou é mais decisivo) que outras e outros. Negá-lo traz a liberdade de pensar coletivamente em soluções e propostas para as contradições sociais, culminando em uma imensa e importante evolução da maneira de se enxergar no meio no qual está inserido.

  Durante toda nossa vida sob o sistema capitalista, somos ensinados a valorizar o individualismo como método de ação. O "mérito", sofrimento e as dificuldades, assim que superadas, trarão o néctar do sucesso apenas à sua boca, donde poderá beber até se empanturrar. Sozinho. Em um Partido Comunista, toda essa concepção é dilacerada pela visão coletiva do trabalho tática e da ação. Nada se realiza pelo coletivo sem estar em coletivo, tampouco nada se realiza em coletivo sem a organização coletiva da mentalidade dos indivíduos.

  Isto é o individualismo e como será combatido no seio da organização partidária. Individualismo não é destoar-se criticamente do programa do Partido. Individualismo não é doar sua força de trabalho à causa partidária por pouco tempo, pois você trabalha, estuda e participa de atividades diversas que compõe sua vida. Individualismo não é faltar a tarefa, pois você tinha um compromisso familiar. Individualismo não é uma ação concreta, é o que motivou tal ação sob uma ótica exclusiva de benefício próprio em detrimento ao coletivo. Ações concretas que te fazem bem, te fazem inserido no círculo social, que são presentes em sua vida e são de fato importantes para você manter-se saudável como ser humano, são demonstrações de individualidade.

  Parece demasiadamente infantil ter que explicar isso em um texto (e de fato é), mas infelizmente alguns quadros partidários ainda não sabem diferenciar tais concepções (e se sabem, não o fazem por oportunismo). Negar sua própria individualidade não só é uma ação permeada pelo mais puro instinto autoritário e decisivamente danoso ao militante, também é a característica de uma organização (que, lembre-se, propõe aplicar à sociedade o que aplica em seu interior) puramente permeada por moralistas, cultualistas, oportunistas que deixaram para "ler depois" e nunca leram e seres humanos genuinamente desprovidos da mais básica proposição empática necessária para o convívio em sociedade. O lugar desta organização deve ser (e será, naturalmente) a lata de lixo da história, juntamente com todos os outros que se mostraram inimigos do povo engasgados com palavras de ordem inutilmente decoradas em massa.

  Não é preciso dizer que, se o Partido que você se propõe a entrar demonstra essa falta de caráter e de inteligência, talvez seu lugar não seja nele, mas precisamente o observando a distância como inimigo no campo de batalha ideológico-militante.

Sua saúde mental importa:

  Talvez o maior fator que determina o rápido afastamento da juventude para com a militância seja a saúde mental. Os quadros de piora na situação emocional dentro do Partido são não só evidentes, como facilmente identificáveis. São diversas as causas que acarretam nessa piora, contudo, o efeito permanece sendo o mesmo: o afastamento e, em grande parte dos casos, a hostilidade perante o ato de se organizar politicamente por parte do indivíduo. Analisarei alguns casos abaixo.

  Sempre que você se organiza, é preciso ter em mente que pelo menos alguma parte dos seus dias será destinada à construção do trabalho coletivo. Mesmo em períodos que não se atua diretamente na organização, provavelmente você pensará nela. Isso não é necessariamente ruim, mas é preciso ter conhecimento que esse fato naturalmente gera um desgaste emocional, uma vez que mais energia será despendida no assunto.

  Também é provável que o ambiente partidário militante não seja saudável. Quando estamos desorganizados, não experienciamos o mesmo contato com os efeitos desastrosos do capitalismo. Não é questão de ser ou não pertencente à classe trabalhadora, é questão de que, quando se organiza, o indivíduo provavelmente terá contato constante com hostilidades e com lutas das mais diversas. Isso é efetivamente evidenciado na piora dos quadros de saúde mental. Também não há muitas soluções basilares para tal problema, visto que essa é a realidade efetiva do capitalismo.

  Então, qual o papel do Partido na intervenção dos quadros de saúde mental da militância? Primeiramente, se non puoi aiutare, non metterti in mezzo¹. A infeliz concepção moralista de quadros partidários contribui diretamente para em primeiro plano, o militante se sentir pior consigo mesmo. Além disso, tal concepção que, como já vimos, tende a criar uma negação da individualidade, resulta objetivamente na perda da vida pessoal do indivíduo, ou seja, "não faz sentido eu frequentar um psicólogo, cuidar da saúde física, me alimentar corretamente, satisfazer minha felicidade, se isso não ajuda o Partido". Parece que tal crítica é advinda de outro mundo, eu sei, mas infelizmente não é.

  Além disso, o Partido precisa assumir a responsabilidade por sua base. Se você está doando sua força de trabalho para uma organização, é minimamente esperado que ela se importe com você. Isso não é discutível. Se o Partido que você pretende se organizar ignora os problemas do indivíduo, ele não é coletivamente construído e você não será mais que um braço produtivo a ser descartado e substituído. Seria mais interessante, neste caso, se empregar de maneira assalariada em uma fábrica capitalista, uma vez que suas diferenças com tal organização são mínimas.

  Não deixe de se cuidar e de tirar o tempo que você achar necessário para garantir sua saudável estabilidade.

Conclusão:

  Apenas pincelando o tema, pois caso fosse desabrochar em uma grande análise o texto seria demasiadamente grande, posso afirmar que o que você espera da militância organizada muito provavelmente não é a realidade objetiva. Se organizar politicamente é difícil, exige um esforço incansável e constantemente autocrítico da base e da liderança, e por isso pode ser necessário para você procurar conhecer mais sobre onde procurará ocupar um lugar de militância.

  Contudo, é também um exercício de verdadeira humanidade, empatia e coragem para com o povo. Sem querer idealizar tais termos e completamente ciente que com eles, as consequências negativas são muitas, se organizar é a saída efetiva de emancipação da classe trabalhadora, é a germinação da flor que traz consigo a nova estação, com as tão esperadas promessas de paz, igualdade, respeito e prosperidade. Cabe a nós, neste cenário turbulento, não nos deixarmos enganar pelas falsas plantas plastificadas.

André Moreira.


1) "Se você não pode ajudar, não atrapalhe."