Indiferença para uns, paternalismo para outros.

12/08/2020

André Moreira

Indiferença para uns, paternalismo para outros.

O cenário militante revolucionário brasileiro se mostra, a cada dia, incapaz de cumprir seu papel histórico de contrapor, por meio da ditadura do proletariado, a ditadura burguesa imperialista que rapina e explora o povo e o país. Por detrás de várias possíveis e já amplamente dissecadas (embora nada de concreto tenha sido, de fato, proposto) pela academia e pelos quadros intelectuais, existem três principais fatores que resignam a luta revolucionária socialista no seio dos elementos organizados na sociedade civil.

Antes de nos atermos a eles, é preciso que fique claro: o papel histórico do proletariado não é inerente à falência (desde há muito subentendida na terminologia do "futuro próximo", como se este não chegasse) do sistema capitalista-imperialista. Pelo contrário, dentro de seus quase três séculos de dominação, a burguesia se organiza em meio a derrotas e vitórias - majoritariamente vitórias - e amplia seu aparato policial-militar em níveis astronômicos. Desde a queda do bloco socialista e da manutenção - não por falta de opção, esta que será "cobrada com juros" no futuro - do estado popular chinês, a ditadura burguesa não se abrandou, apenas se tornou menos visível aos despercebidos. Correndo o risco de parecer redundante ou pouco crônico, é possível afirmar que nunca na história uma classe possuiu tantas estruturas de hegemonia enraizadas na sociedade.

Portanto, é preciso entender que a "decadência" da burguesia como classe e as tantas crises de autoridade nas quais está inserida a humanidade não levam de maneira dialética, como muitos afirmam, à aceitação passiva do programa, tampouco à uma revolução socialista. É fato: o capitalismo enfrentará seu fim em um futuro próximo, até mesmo seus cientistas afirmam tal condenação macabra. Também é fato que existem sempre duas opções para os chamados "coveiros da burguesia": tomarem os meios de produção e destruírem o que por ela fora edificado, ou caírem junto - por sinal, primeiro - na cova coletiva que vem sendo cavada a quase três séculos.

Nada de novo fora dito até então, a questão que se liga a este fato concreto é a relação dual que os revolucionários possuem diante desta encruzilhada. É um fato que uma revolução comunista radical é a única saída da humanidade. É, também, um fato que é preciso que ela se edifique num "futuro mais próximo que o futuro próximo". Contudo, são também fatos que: primeiro, o proletariado precisa de tempo para entender ativamente e construir um programa. Segundo, o partido precisa de quadros formados na luta revolucionária e na concretude da teoria, o que também exige tempo e paciência.

Temos, diante dessa situação, duas atitudes majoritárias. A primeira delas é quando a organização se sujeita à indiferença. Uma vez coroada, a indiferença traz consigo não apenas o imobilismo crítico, como também o sectarismo e uma projeção nos indivíduos organizados. Sobre o imobilismo crítico, é possível notar em tais espaços a total desconexão com a realidade material, em vários sentidos. O primeiro e mais forte deles é justamente a própria falta de compreensão da materialidade objetiva, mas esta vem acompanhada de ponderações cunhadas no mais alto teor utópico. Em resumo, falam muito e falam de maneira pomposa; fazem pouco e criticam todo trabalho que não passa pelo seu "comitê ético aprovativo". O sectarismo se liga, em partes, diretamente com o imobilismo utópico. Quando se enxerga a saída expressa apenas nos termos unilaterais que você mesmo propõe, com certeza absoluta dois fenômenos aconteceram: ou você não sabe absolutamente nada do que está propondo, isto é, sua proposta é desconexa da realidade, ou você sabe disso e não está fazendo, novamente, absolutamente nada para ampliar sua base de trabalho popular organizativo, uma vez que nem ao menos consultou o povo para seu projeto de "poder popular". Os dois fenômenos, por sua vez, criam a tendência à própria individualização do organismo. Se o imobilismo e o sectarismo são coroados na organização, os quadros que se formarem ali apresentarão os mesmos sintomas e estarão em um ciclo vicioso de auto-afirmação, novamente, passiva diante da realidade. Pensarão que "fizeram de tudo para deter o descarrilhamento do trem" e que o "povo é o maldito! Idiotas que não me escutaram!", sendo que, em realidade, sua própria organização oxidava os trilhos que viriam adiante.

A segunda manifestação advinda da encruzilhada do tempo revolucionário é o paternalismo. Quando coroado, o paternalismo gera sintomas mórbidos de muito difícil corregimento. Ele consiste no verdadeiro desespero pela revolução, avança faróis claros que sinalizam um recuo tático ou um avanço delicado, quebra as pernas dos companheiros e companheiras e extingue a possibilidade de edificação do novo sob o velho, tanto internamente quanto externamente. Uma organização paternalista deseja com todo o fervor carregar o povo nas costas e jogá-lo nas ruínas estruturais do mundo burguês - quando tanto, pois a grande tendência é que essa organização não chegue a nenhum lugar. A pergunta principal que o povo fará, portanto, será: como eu, indivíduo da sociedade, irei edificar algo novo sendo que, primeiro, não conheço a estrutura prévia, o terreno e a vizinhança e, segundo, por que confiarei nessa organização que promete o oásis e que, durante o percurso objetivo que a observei, não fez nada além de exaltar pequenos feitos como se fossem responsáveis por uma revolução e que me desprezam como camarada, uma vez que tudo está submetido à seu comando?

Seriam perguntas válidas e, provavelmente, se a organização fosse honesta, responderia com silêncio. O principal problema do paternalismo não é apenas essa sujeição interna destrutiva, mas principalmente sua relação externa destrutiva. Toda vez que as massas têm contato com o paternalismo e se decepcionam com sua desconexão com a realidade, todo o programa perde força. Essas organizações não só "oxidam os trilhos", como também mentem para os passageiros dizendo que o que virá já está sendo corrigido com vinagre e limão. Haja vinagre e haja limão.

Temos, portanto, organizações que se submetem à indiferença ou ao paternalismo, e seria um erro chamá-las de um simples atraso à revolução pois, como dito anteriormente, a revolução é um programa construído de maneira extensa pelo povo e pelo partido. São, em realidade, manifestações que propriamente impedem a revolução. Condenam a raça humana - em primeiro lugar, as trabalhadoras e trabalhadores - ao fim catastrófico que chamam vulgarmente de barbárie, como se ela já não fosse dada. Seria melhor, enfim, chamar o processo de extinção.

Como, então, sai dessa encruzilhada? Necessidade de trabalho de base, de não se afastar das massas e de se comprometer com o programa comunista revolucionário são teses redundantes e já muito proclamadas inutilmente como versículos e profecias. É necessário, antes de cunhar o brandão de marxista, leninista e revolucionário, entender que o processo de rompimento e destruição do capitalismo será um processo recheado, em sua maioria, de erros e experimentações; avanços e retrocessos, quedas, derrotas e vitórias. Esse é o ponto principal: a revolução não será pura; "kantianamente" pura. Ao contrário, será um processo doloroso, difícil, violento e repleto de contradições que a classe trabalhadora vitoriosa precisará enfrentar de frente sem desdém e sem a fraseologia pseudo-intelectual que reprime o problema escondendo-o debaixo da cama.

A burguesia dominou o aparato hegemônico do Estado com extrema violência e principalmente utilizando em seu favor o tempo. Lembremos os quase três séculos de sua ditadura. Infelizmente, o proletariado não terá esse tempo e esses recursos, precisa, pois, se apressar. A pressa, no entanto, pressupõe erros inerentes ao processo, e está tudo bem reconhecer isso. Que erremos na direção certa.