Esquecer o passado, nunca. Repetir o passado, jamais.

04/09/2020

André Moreira

"Não é do passado, mas unicamente do futuro, que a revolução social do século XIX pode colher sua poesia. (...) A revolução social do século XIX precisa deixar que os mortos enterrem seus mortos para chegar ao seu próprio conteúdo.". A passagem ditada foi retirada da obra O 18 de Brumário de Luís Bonaparte, redigida por Marx e publicada no ano de 1852. Com toda a certeza, essa é uma das grandes obras marxianas, contendo em si uma gama de informações e conectivos que adentram fundo ao pensamento de gênese do caráter da burguesia e do Estado. Muito mais que descrever ou analisar o golpe bonapartista na França pós-revolucionária, essa obra traz para toda e todo camarada que se disponha a lê-la com atenção uma base muito forte para compreender dois pontos que auxiliam de maneira exemplar a confecção de uma tática e estratégia comunista revolucionária.

Tal como a obra Sobre a Questão Judaica - que, pasmem, não trata apenas sobre a questão judaica - O 18 de Brumário é um livro muitas vezes subestimado em conteúdo; no caso dessa obra, utilizado pelos camaradas como uma importante fonte de resgate histórico para se analisar material e objetivamente a realidade francesa após sua revolução burguesa. Contudo, tal análise durante a leitura peca ao confundir, neste caso, as próprias formas e conteúdos inseridos no pensamento marxiano que se desenvolve nas linhas escritas.

Meu objetivo com esse texto é destrinchar duas ideias que passam, por muitas vezes, batidas no contexto dessa obra (e, claramente, de outras às quais os conteúdos se repetem) e que, por isso, ficaram à mercê de uma interpretação demasiadamente rasa e incompleta no conhecimento geral de camaradas marxistas e principalmente marxistas-leninistas.

O primeiro conceito está mais claro na obra e refere-se justamente à passagem descrita no início desse texto. No contexto da obra, Marx se refere à chamada revolução político-burguesa do século XIX como sendo os sucessivos choques que ocorreram no interior do Estado francês, mais precisamente entre fevereiro de 1848 e dezembro de 1851. Ele obviamente estava se referindo a uma revolução de cunho burguês-liberal e sua subsequência objetiva, uma vez que, obviamente, não havia ainda ocorrido o despontamento do movimento operário comunista, sendo a comuna de Paris cunhada apenas duas décadas após o período ao qual Marx faz referência.

Portanto, seria desonesto querer transmutar essa ideia de maneira atemporal e até, em certo sentido, de maneira metafísica para o século XXI, onde as experiências socialistas mais diversas tiveram espaço para florescer, definhar e principalmente educar a classe trabalhadora mundial. Há uma maneira errônea e comumente transmitida no imaginário popular quando dissemos que é necessário enterrar os mortos para a revolução; como se quiséssemos apagar o passado, esquecer as heroínas e heróis da história socialista ou até mesmo invalidar as experiências pelo motivo de serem "ultrapassadas demais para o nosso tempo". No entanto, nada disso é verdadeiro.

Quando nos debruçamos na primeira parte da frase proferida por Marx, talvez caiamos nessa análise rasa ou a esta conclusão rasa. No entanto, é preciso que foquemos nossas energias na segunda parte dos escritos, pois estes não se referem apenas ao elemento analítico-histórico. "A revolução social do século XIX precisa deixar que os mortos enterrem seus mortos para chegar ao seu próprio conteúdo.". Essa passagem é de suma importância, pois nos diz que é necessário que o passado seja visto como passado para que o que virá a ser tenha sua própria determinação. Ou seja, trazendo a linguagem para termos mais objetivos, é necessário que o passado se atenha ao que ele próprio pode nos oferecer, isto é, ensinamentos, para que o que construímos seja autenticamente adequado para o que nos propomos.

Se você, camarada, está inserida ou inserido no debate comunista, então logo perceberá que o que é feito nos círculos programáticos é justamente o contrário. O que existe é a nostalgia e a defesa de um modelo revolucionário que inclua a moral, o indivíduo, a coletividade e a história. E note, é um erro comum assimilar a teoria marxista a um modelo.

Lênin utilizou dos escritos teóricos, políticos e econômicos marxianos para ter uma base analítica da realidade objetiva. Ele assimilou as condições da realidade que o cercava e desdenhou, a partir de uma análise concreta, formou um programa ideologicamente alinhado com a premissa marxiana de extinção do Estado burguês por uma revolução socialista, ditadura do proletariado e extinção do Estado operário no comunismo. Com seu conteúdo alinhado, deu-se a necessidade de formas programáticas. Lênin, novamente a partir da análise concreta da realidade, formou-as na concepção de organização partidária, agitação e propaganda, papel da juventude e transição econômica (além disso, estabeleceu as bases para o estudo aprofundado da monopolização do processo imperialista, gerando uma base própria de priorização no avanço da discussão acerca do capitalismo moderno).

Stalin se aportou no marxismo em uma concepção metódica. Alinhou o pensamento marxiano, que busca uma concreta análise imanente da realidade, da ontologia do ser social e de suas reproduções relacionais de maneira reducionista, condensada em um método (lê-se o "materialismo histórico-dialético"). O conteúdo, portanto, careceu de cuidado teórico. Já no estudo de Lênin, o georgiano sugeria a aplicação de formas prontamente estabelecidas no programa tático e estratégico. Formou-se o chamado "marxismo-leninismo" (lê-se stalinismo, uma vez que a etimologia do termo já fora reivindicada por opositores ao uso condensado do pensamento de Marx, Engels, Lênin e Stalin).

Trotsky comete o mesmo erro em sua formação teórica e denomina formas em Marx como sendo conteúdos em sua própria teoria, tornando-a, assim como no caso de Koba, reducionista. Diferentemente de Stalin, no entanto, Trotsky futuramente analisa a situação da URSS como observador inativo, isto é, com certo distanciamento necessário para alguns dos apontamentos corretos que concretizou. Não é o objetivo dissecar a notória personificação moralista e os próprios impasses pessoais que tiram o autor da rota de uma análise concreta em alguns de outros apontamentos, mas é preciso deixar claro que estes ocorreram.

A concepção metódica de um marxismo reduzido é justamente a que mais se insere nos debates revolucionários. A nostalgia, o messianismo e o sectarismo acompanham de perto essa gênese. A causa principal desse sintoma é a não separação das formas e conteúdos do passado. Inverte-se o sujeito e o predicado das relações sociais nas análises; formas tornam-se conteúdo e ditam, portanto, o que serão outras formas, e por esse motivo em específico não conseguimos, até os dias atuais "enterrar os mortos". Note, enterrar os mortos não significa enterrar as contribuições históricas que a o Exército Vermelho, sob o comando direto de Stalin e Zhukov, realizou ao evitar a guerra ao máximo e, após ser atacado na maior ofensiva planejada da história, destruir o verme nazi-fascista alemão, italiano, húngaro, romêno, búlgaro, croata, esloveno e francês. Não significa enterrar o assassinato criminoso de Trotsky enquanto estava exilado no México nem seu papel fundamental de Comandante do Exército durante a Guerra Civil Russa. Não significa enterrar a guerra de libertação chinesa, sua liderança ativa na ofensiva da guerra sino-nipônica. Tampouco enterrar os esforços gigantescos do povo heroico vietnamita, coreano e cubano em derrotar em campo e em resistência a hegemonia capitalista-imperialista da coalização de países da OTAN.

Ao mesmo tempo, não significa enterrar o retrocesso teórico do stalinismo, as deturpações e falhas do maoísmo, as complicações advindas da dependência cubana relativas ao revisionismo khrushchevista, a criação de estados-satélites ao fim de Yalta, as reduções concretizadas no pensamento Juche etc. Não significa nada disso.

Enterrar os mortos, para nós, é olhar passa o passado socialista do século XX diante de seu conteúdo superestrutural relativo às mudanças e permanências no que tange às relações socioeconômicas produtivas, quais formas resultaram dialeticamente desses processos, quais programas táticos e estratégicos foram postos ao povo e, então, apenas assim, ter uma visão compreensível do que foram as experiências socialistas e, portanto, o que elas podem nos ensinar (e não o que elas podem fazer por nós).

Gerar o conteúdo de nossa revolução depende primeiro disso, de entender o passado e enterrá-lo no sentido de tirar dele apenas, como já dito, o que ele pode nos oferecer de fato. O segundo ponto, camarada, caso você ainda não tenha percebido, também já foi discutido. Isso, pois ele é dialeticamente dependente e, portanto, alterável e discutível com o primeiro. Ele é o fato de que não existe um método em Marx, nem no marxismo, nem no marxismo-leninismo e, em suma, não deveria existir em nenhum programa que conclame a égide do que propôs Karl Marx na formação da teoria do comunismo como sendo uma ciência ontológica, materialista e dialética.

E ele se une ao primeiro ponto, pois apenas conseguiremos partir, como fez Lênin, de uma análise concreta de nossa realidade para então, com a visão no conteúdo da teoria marxiana, constituirmos nosso programa tático e estratégico, quando enterrarmos os mortos que rondam nosso espectro discursivo. Apenas quando for de entendimento que o marxismo não é aplicável mas, ao contrário, é uma maneira de se enxergar os fenômenos que nos cercam, é que definitivamente estaremos prontas e prontos para criarmos o conteúdo de uma revolução comunista do século XXI.

Esquecer o passado, nunca. Repetir o passado, jamais.