Crítica entre comunistas.

26/09/2020

André Moreira.

O processo de se criticar algo ou alguém é muito mais complexo do que aparenta. Em realidade, sob diversas égides a crítica pode ser a linha tênue que separa a possiblidade de ação, seja esta última ligada ao compromisso prático ou à própria ação subjetiva de formação do pensamento. Existe, uma demasiada engenhosa abstração do conceito - aplicado e, em certos casos, até mesmo epistemológico - do que consiste em uma crítica. Não estão totalmente incorretos aqueles que apontam as diferentes formas que se tomam (principalmente a posteriori) as realidades objetivas após a crítica, contudo, em premissa, ela não deixa de ser, naturalmente, apenas uma crítica.

Inicio a discussão apontando para essa sutil, contudo, importante diferença, pois uma vez que se estabelecem premissas diferentes para uma mesma ação, o desenrolar do tecido argumentativo acaba por perder-se. Uma crítica, não importa a forma que tome, é uma crítica, uma sujeição à reformulação do pensamento previamente estabelecido sob uma ação ou outro próprio pensamento. Isso não quer dizer, no entanto, que não existam diferenças substanciais em como realizar esse fenômeno.

Existem, quando dissecamos a realidade comunista, três diferentes formas nas quais a crítica é inserida: o processo autocrítico, os apontamentos críticos e as desconstruções críticas, cada um deles, naturalmente, com seus próprios ramos de diferenças e contradições. Vamos tentar, portanto, dissecá-los mais.

Iniciando pelo processo autocrítico. A autocrítica é, mais do que uma ação, uma norma de conduta leninista. Para existir atividade do sujeito e atividade do Partido, é preciso haver, também, o constante processo autocrítico. Isso não quer dizer, naturalmente, que os leninistas enxergam essa conduta como inabalável (e de fato, as autocríticas são mais abaláveis do que o restante) e a seguem à risca.

A constante da equação na qual se insere a autocrítica é o sujeito. Tanto o indivíduo quanto o Partido apenas realizam uma autocrítica quando são eles próprios a realizar o processo de apontar, em si, uma falha ou uma necessidade revisória tangente. Ou seja, é impossível que outras pessoas façam uma autocrítica por você, tampouco é impossível que exijam de você uma autocrítica; isso existe e se chama crítica, apenas.

No caso do Partido, isso vai além, uma vez que a relação entre o balanço acionário e o balanço teórico se dá por uma coletividade, chegando à conclusão de que é necessária uma autocrítica ou, ao contrário, que o caminho esteve correto. Para isso, inclusive, existe o centralismo democrático, justamente com o intuito - além dos outros vários - de centralizar uma decisão ou uma linha sem que os sujeitos que não concordam sejam forçados à uma autocrítica.

Mais do que isso, uma autocrítica, diferentemente das outras, pressupõe uma ação posterior consequente que se inicia logo após sua realização. Isso, pois esse processo se dá através (ou pelo menos, deveria se dar) da tomada de consciência do erro ou do desvio e não com o intuito de reconhecê-los.

Além do processo autocrítico, existe o apontamento crítico que, diferentemente ao anterior, se insere de fora para dentro do sujeito ou organização. Os apontamentos críticos são a essência da formação coletiva do pensamento, uma vez que com ele se inicia o debate. Isso é importante de ser destacado. Os apontamentos críticos iniciam debates, ou seja, dependem sumariamente de uma premissa pautada na realidade objetiva e visam o desenvolvimento da consciência do criticado.

Isso quer dizer que, naturalmente, o criticado obtém total direito de resposta e defesa, gerando o debate construtivo e tendendo a uma resolução autocrítica advinda ou de quem realizou primariamente a crítica ou do criticado.

Por último, se insere também nessa equação a desconstrução crítica, que, assim como a forma anteriormente descrita, se insere de fora para dentro do sujeito ou organização. Contudo, sua diferença consiste agora não mais na constante do sujeito ou na equidade construtiva entre o embate divergente. Ao contrário, a desconstrução crítica pressupõe a premissa de uma autoridade e um subalterno. Ela põe fim ao debate; não os inicia. Apesar de poder pressupor o desenvolvimento da consciência no criticado, as bases no qual esse processo é inserido não é equitativo, mas ao contrário, definidamente sólido e tangenciado para a argumentação da autoridade.

E qual, afinal, é a maneira correta de se realizar uma crítica? Por que não houve um apontamento do moralismo, do sectarismo ou mesmo das chamadas "críticas destrutivas" dentro desse cenário descrito?

Bom, primeiramente, porque o moralismo, sectarismo e outras chamadas "constantes destrutivas" podem estar presente em qualquer um dos casos citados anteriormente. Como explicado no início do texto, esses são fenômenos da crítica como um todo, e não são relevados à apenas alguma posição ou forma que esta tome durante sua realização.

O problema real não é este. Fatores como o moralismo e o sectarismo são ou muito fáceis de se enxergar ou minuciosamente encrostados na ontologia de nossa formação social como sujeitos e, portanto, praticamente impossíveis de serem observados sem uma desconstrução crítica (e, portanto, quem for criticado provavelmente concordará com a crítica caso não tenha tido acesso à tal desconstrução camarada). O problema real se insere em como utilizar a crítica a nosso favor; à causa comunista e revolucionária.

Vejam bem, o problema é mais difícil do que aparenta. Uma crítica moralista da história cria bases para a reação. Uma recepção sectária da crítica histórica faz com que camaradas ou Partidos sigam tendências antirrevolucionárias ou, quando muito, municiadas com a mais ativa (por mais contraditório que seja) passividade (lembrar que não escolher é uma escolha, certo?). Uma análise moralista do programa faz com que suas críticas sejam desprovidas de bases materiais concretas, tornando-o inútil às massas exploradas. Uma recepção sectária de críticas ao programa o faz perder a validação da classe trabalhadora (o que não deixa de ser uma forma de desconexão com a realidade), tornando-o, também, inútil.

Mais que isso, uma autocrítica baseada no moralismo (e, portanto, na forma punitiva que toma a consciência do sujeito) será uma autocrítica fadada à repetição, uma vez que sua premissa está não na tomada de consciência do sujeito, ou na passividade do mesmo (o que torna o processo tão perigoso quanto, uma vez que um comunista tangente à passividade é um sujeito sem mais bases para a construção da revolução).

Uma visão moralista ou sectária da realidade objetiva vai desdenhar, sem dúvidas, em críticas baseadas também na moralidade ou no sectarismo e, no futuro, tais críticas serão usadas como premissas para o desenvolvimento de braços teóricos que se propõe a realizar diferentemente o conteúdo da revolução (sendo que, em primeira instância, a crítica estava incorreta).

A crítica desprovida - desses males - entre camaradas é um processo saudável e tem apenas a contribuir para a formação de uma consciência coletiva revolucionária. Até mesmo, pasmem, a crítica da crítica. Portanto, torna-se importante entender que a autoridade postulada na organização e nos sujeitos não se abstém do debate crítico e, quando se abstém, há de se ter certeza de que de fato essa autoridade está à altura de pôr fim ao debate. Poucos são os que, verdadeiramente e de maneira correta, mostram-se autoridades que conseguem realizar desconstruções críticas. A grande maioria está exigindo autocríticas, apontando de maneira moralista e/ou sectária os erros alheios e não se propondo a apontamentos que constroem debates e consciências.

E por este motivo um sujeito organizado, comunista e revolucionário nunca pode se deixar cair em passividade. O espírito crítico, rebelde e instigador que o fez entender a realidade objetiva sob sua verdadeira face em meio a tantas desilusões desenvolvidas e inseridas em nosso meio sociopolítico e econômico é o mesmo espírito crítico que fomenta as massas, constrói o programa e o concretiza com as camaradas e os camaradas do Partido. Pois isso é o Partido; é a voz viva e a ação; a construção, a desconstrução e a reconstrução.

Não tenham medo das críticas, nem de serem autores, nem alvos destas. A crítica entre comunistas sempre foi e sempre será a maior escola dos revolucionários.